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Devolva o carro

Há quanto tempo que as manchetes dos jornais sempre nos levam a um escândalo de corrupção? CPIs, investigações, denúncias... São tantas que a gente se perde em saber quem é o mocinho e quem é o bandido. Será que a ética, os conceitos simples de certo e errado realmente se perderam pelo tempo?
Fico pensando na minha empresa, na minha família, no meu quintal. Não, decididamente eu não acredito que as coisas são como são e que hoje em dia vale tudo para ser chegar a um objetivo.
Em casa as coisas são muito diferentes. Não considero meus pais pessoas de linha dura, mas com amor o suficiente para encontrar tempo de nos observar e consertar, aos poucos, e na hora, qualquer atitude que possa estar errada. Uma a uma, todos os dias, fomos sendo educados para falar com respeito, agir com comprometimento e projetar o futuro com base na capacidade do trabalho e do entendimento.
Eu morreria de vergonha se meu nome estivesse ligado a um escândalo, pequeno que fosse, nota de rodapé, não importa. Meu espelho me condenaria mais que qualquer lei.
Volto meus olhos às notícias dos jornais. Como reage cada um dos envolvidos quando está em casa, com a sua família? Como olha para o seu filho? Como conversa com os seus pais? Perdido nos meus pensamentos e triste com a seqüência de escândalos que leio, vou para trás na história...
Muito se fala da época da ditadura militar, é óbvio que a perseguição e tortura àqueles que iam contra o regime foi terrível, mas tem uma história daquela época que deveria servir de exemplo para muita gente que está no poder...
Em 1966, o então presidente Castello Branco leu nos jornais que seu irmão, funcionário da receita federal, havia sido presenteado pelos seus colegas de trabalho, com um carro Aero-Willys, em agradecimento pela ajuda que dera na lei que organizava a carreira deles.
Imediatamente o presidente mandou seu irmão devolver o carro. O irmão de Castello Branco argumentou que se devolvesse o presente, ficaria desmoralizado no cargo que ocupava. O presidente o interrompeu e disse: “Meu irmão, afastado do cargo você já está. Estou decidindo agora se você vai preso ou não”...
Estou dizendo que a ditadura era melhor? Claro que não. Só me lembro desta atitude concreta, séria e justa. Uma decisão forte que faz exemplo, que constrói a ética. E ai, me lembrando de exemplos como esse começo a acreditar que a vida não é essa bagunça toda e que há, com certeza formas de alinharmos as estruturas organizacionais.
Se não aplicarmos a ética no nosso cotidiano, não teremos chance de seguir em frente. Depende de nós, sim. Depende de como agimos a cada atitude incorreta que acontece no nosso quintal – fingir que não viu ou encarar de frente e tomar a atitude necessária? Eu fico com a segunda opção.
O melhor negócio é sempre aquele que é bom para os dois lados, bom negócio tem de ser lucrativo para os dois. Se não... Há algo errado na atitude, há um peso diferente para um dos lados – independente do que lado você esteja.
Princípios morais e éticos constroem, sim, bons negócios. Qualquer outro ambiente, pode trazer lucro imediato, mas não construirá, ao longo do tempo, uma estrutura sólida.
Comece no seu quintal, na sua empresa, na sua casa. Comece no seu espelho, e assim – só assim – poderemos criar um futuro mais sólido. Corrupção? Eu não me acostumei com ela, pra mim não é nada normal... e para você?

Até a próxima semana

Rodrigo Barros

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